Bombeiro é preso após morte estudante de medicina Bruno Hashimura em Taubaté. Delegado não reconheceu tese de legítima defesa

O BO da briga de trânsito em Taubaté que resultou na morte de Bruno Hashimura San Juliano, de 23 anos, revela novos detalhes sobre o homicídio ocorrido na manhã desta quarta-feira (30/09), na Avenida Professor Walter Thaumaturgo, a Avenida do Povo. O registro identifica o bombeiro militar Marcos Paulo Fujarra de Oliveira, de 28 anos, como indiciado e informa que a Polícia Civil, nesta fase da investigação, não reconheceu a tese de legítima defesa. A autoridade policial passou a apurar, em tese, homicídio qualificado por motivo fútil e por recurso que teria dificultado ou impossibilitado a defesa da vítima. CLIQUE AQUI E ENTRE NO NOSSO CANAL DO WHATSAPP

O documento apresenta também a versão dada por Marcos à polícia, a apreensão de uma pistola Taurus calibre .380, 14 cartuchos intactos e um canivete retrátil encontrado dentro do Chevrolet Prisma relacionado a Bruno.

A existência do canivete é um elemento importante da apuração, mas o boletim não afirma que Bruno tenha exibido ou usado o objeto contra Marcos. A Polícia Civil ressalta que não encontrou arma de fogo com a vítima ou dentro do veículo.

Outro ponto relevante aparece no despacho da autoridade policial: o número de disparos foi apontado inicialmente como cinco e também será alvo de perícia.

A ocorrência

A Polícia Militar recebeu o chamado às 7h04 para atender uma ocorrência de disparo de arma de fogo na Avenida Professor Walter Thaumaturgo. O boletim registra como endereço da ocorrência a região da altura do número 745.

No histórico, porém, os policiais relatam que encontraram Bruno caído e com sangue na calçada, na altura do número 880. Os primeiros policiais também receberam a informação de que dois indivíduos teriam sido vistos pela avenida e que a ocorrência envolvia um Chevrolet Prisma.

Um enfermeiro do Hospital Regional de Taubaté apareceu no local e ajudou nos primeiros socorros até a chegada da equipe de resgate — o próprio boletim esclarece que esse profissional não presenciou os fatos.

Populares abordados pela Polícia Militar também disseram que não haviam visto a sequência da discussão, apenas que encontraram Bruno caído.

Bruno foi socorrido, mas morreu no hospital

Bruno recebeu atendimento de uma unidade de resgate e seguiu para o Hospital Regional de Taubaté, mas não resistiu aos ferimentos. O despacho policial informa que, depois dos tiros, ele saiu do veículo, tentou se afastar do local e caiu mais adiante.

O caso passa a constar no boletim como homicídio consumado. A reportagem anterior do Vale 360 News já havia informado a identificação de Bruno Hashimura e a participação de um bombeiro militar na ocorrência. O novo boletim permite agora detalhar os elementos considerados pela Polícia Civil.

Qual foi a primeira versão do bombeiro?

O boletim aponta que um policial militar deixou o local onde Bruno estava e seguiu até o Jeep Renegade relacionado ao caso. A equipe abordou Marcos Paulo Fujarra de Oliveira, que disse informalmente ao policial que havia se envolvido numa discussão de trânsito com Bruno.

Nessa primeira versão, ele declarou ter sofrido ameaça com uma faca e ter efetuado os disparos para se defender. Depois, já no registro formal da Polícia Militar, informou que só se manifestaria na presença do advogado.

O BO da Polícia Civil traz, na sequência, uma versão mais detalhada prestada pelo investigado.

O que o bombeiro declarou à Polícia Civil?

No interrogatório, Marcos sustentou que acreditou estar diante de uma tentativa de roubo. Disse ter visto um objeto de aparência prateada nas mãos de Bruno e ter suposto que se tratasse de arma de fogo.

Segundo essa versão, ele deixou o Renegade e se aproximou do Prisma. O bombeiro também declarou que Bruno teria quebrado o vidro da porta do motorista e tentado avançar contra ele, e atribuiu os tiros a esse momento.

Essa narrativa é a versão do investigado, e ainda será confrontada com perícias, vestígios e demais provas.

O BO confirma que Bruno estava armado?

Não com arma de fogo. A Polícia Civil afirma expressamente que nenhuma arma de fogo foi encontrada com Bruno ou dentro do Prisma. O boletim registra, porém, a apreensão de um canivete retrátil com cabo azul ligado à vítima, encontrado dentro do veículo.

Vale a precisão: o fato de um canivete ter sido localizado no carro não demonstra, por si só, que Bruno tenha mostrado, empunhado ou usado o objeto contra Marcos. O despacho da autoridade policial não afirma, nesta etapa, que exista prova objetiva de que Bruno anunciou um assalto, nem que tenha exibido arma de fogo.

Por que a Polícia Civil não reconheceu legítima defesa nesta fase?

O despacho dedica uma parte específica do boletim à alegação de legítima defesa, e a autoridade policial concluiu que os elementos reunidos até o momento não eram suficientes para reconhecer imediatamente essa excludente.

Um dos fundamentos é a ausência de prova objetiva de que Bruno tenha anunciado um roubo ou exibido arma de fogo. Outro aspecto analisado foi o deslocamento dos dois envolvidos: de acordo com os elementos citados, Bruno não teria deixado o próprio veículo para perseguir ou abordar Marcos — foi este último quem saiu do Jeep e se dirigiu até o Prisma.

Essa circunstância não encerra a discussão jurídica sobre legítima defesa, mas aparece no boletim como um dos fatores considerados pela autoridade policial.

O fato de Marcos ter saído do carro elimina a legítima defesa?

Não automaticamente. A própria Polícia Civil registra no BO que a legislação brasileira não exige que uma pessoa fuja para poder invocar legítima defesa — a questão central é outra: verificar se houve agressão injusta, atual ou iminente, e se a reação foi necessária e moderada.

Por isso, a saída de Marcos do carro precisa ser analisada em conjunto com a suposta ameaça, os objetos encontrados, a posição dos envolvidos e a quantidade de tiros. A legítima defesa continua como tese apresentada pelo investigado e por sua defesa, mas não recebeu reconhecimento policial nesta fase.

Disparos

O boletim cita inicialmente cinco disparos, número que ainda depende de confirmação técnica. A Polícia Civil afirma que esse dado será analisado também para verificar a necessidade e a moderação da reação alegada pela defesa.

A perícia deve examinar trajetória dos projéteis, distância dos tiros, posições relativas dos envolvidos e vestígios nos dois automóveis. A pistola Taurus calibre .380 relacionada a Marcos foi apreendida, junto com 14 cartuchos intactos calibre .380 que estavam no carregador da arma — esses 14 cartuchos não representam o número de tiros efetuados; o boletim os descreve como munição intacta apreendida após o crime.

O que o BO diz sobre o vidro do carro de Bruno?

A condição do vidro do Prisma é outro ponto considerado relevante. Marcos declarou que Bruno teria quebrado o vidro da porta do motorista antes de tentar avançar contra ele, mas o boletim aponta divergência sobre se o vidro estava aberto ou fechado durante os acontecimentos — a perícia deve analisar a condição do vidro e a forma de rompimento para ajudar na reconstrução da dinâmica.

A autoridade policial também registrou uma diferença entre os dois carros: o Prisma de Bruno não tinha película escura nos vidros, enquanto o Renegade de Marcos tinha. A Polícia Civil considera que essa circunstância pode ter relevância para avaliar as condições de visibilidade.

Por que a Polícia Civil cita homicídio qualificado?

Ao final da análise inicial, a autoridade policial afirma existirem elementos indicativos, nesta fase, para apurar homicídio qualificado. O enquadramento provisório cita duas qualificadoras: motivo fútil e emprego de recurso que dificultou ou tornou impossível a defesa da vítima.

A Polícia Civil relaciona o possível motivo fútil ao desentendimento de trânsito. Já a segunda qualificadora depende da reconstrução de como os disparos ocorreram e da possibilidade de reação da vítima.

Essa classificação não equivale a condenação — o próprio BO ressalva que a dinâmica ainda precisa de confirmação por perícias e novos elementos de prova.

Quais perícias foram solicitadas pela Polícia Civil?

A autoridade policial requisitou exames no local, nos veículos, na arma e nos demais objetos apreendidos, além de exame residuográfico no investigado — um exame que procura resíduos associados ao disparo de arma de fogo, mas cujo resultado precisa ser interpretado dentro do contexto de toda a investigação. A Polícia Civil também fez registro visual técnico do cenário.

A perícia deve analisar, entre outros pontos:

  • a trajetória e a quantidade dos disparos
  • a distância entre arma e vítima
  • a posição de Bruno e Marcos
  • a condição dos vidros dos veículos
  • os vestígios no Prisma e no Renegade
  • a pistola calibre .380
  • o canivete apreendido dentro do veículo de Bruno

Bombeiro foi preso

O histórico do boletim informa que integrantes da Força Tática da Polícia Militar fariam a condução de Marcos ao Presídio Militar Romão Gomes. O material analisado também traz o título de uma seção sobre conversão de prisão em preventiva.

O conteúdo fornecido à reportagem, porém, não apresenta a fundamentação completa dessa parte — por cautela, esta reportagem não atribui uma decisão judicial definitiva com base apenas nesse trecho. A situação processual posterior deve ser confirmada por decisão judicial ou atualização oficial da Polícia Civil.

O que ainda falta esclarecer sobre a morte de Bruno Hashimura?

A investigação ainda precisa estabelecer com precisão como a discussão começou e o que aconteceu nos segundos anteriores aos tiros — a posição de cada um, a condição do vidro do Prisma e o papel do canivete encontrado no carro.

Outro ponto é verificar se houve alguma ação de Bruno que sustente a alegação de ameaça apresentada por Marcos. A quantidade exata de disparos e a distância dos tiros também vão pesar.

O laudo pericial pode confirmar, alterar ou afastar as hipóteses registradas nesta fase inicial — por isso, o enquadramento por homicídio qualificado e o não reconhecimento da legítima defesa têm caráter provisório dentro da investigação.

Taubaté já teve outro caso de tiro após discussão no trânsito?

Sim, mas sem relação conhecida entre os episódios. Em março, o Vale 360 News publicou que um garupa foi baleado após uma discussão entre motociclistas na Avenida Narizinho — naquele caso, os autores não haviam sido identificados na fase inicial.

Em maio, outra ocorrência também teve disparos após desentendimento: um homem foi preso depois que uma briga terminou com tiros contra um carro no bairro Estiva.

Estudante de medicina Bruno Hashimura
Cena do crime e Bruno em destaque. Foto: Jesse Nascimento (Vale 360 News) e Redes Sociais

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Jesse Nascimento
Jesse Nascimento

Fundador e jornalista do Vale 360 News. Especialista em Gestão da Comunicação de Mídias Digitais, com passagens pelas Rádios Globo e CBN do Grupo Globo e pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação, onde atuou como Chefe de Reportagem, apresentador, repórter e produtor. Cobre o Vale do Paraíba e Litoral Norte de São Paulo.