Vereador de Taubaté usa estrela amarela da perseguição nazista com frase “não vacinado” e explica gesto

O vereador Alberto Barreto (PRD) utilizou uma camiseta com uma Estrela de Davi amarela e a inscrição “não vacinado” durante a sessão ordinária da Câmara Municipal de Taubaté, nesta terça-feira (3/11). O símbolo remete à identificação obrigatória imposta aos judeus pelo regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Questionado pelo jornal OVALE, o parlamentar afirmou que pretendia criticar as exigências de comprovantes de vacinação adotadas durante a pandemia de Covid-19 e alertar para mecanismos de identificação e segregação de pessoas. Barreto negou que sua intenção fosse comparar diretamente essas medidas ao extermínio de judeus no Holocausto. CLIQUE AQUI E ENTRE NO NOSSO CANAL DO WHATSAPP

O parlamentar está no segundo mandato como vereador e integra o movimento conservador de Taubaté. A camiseta foi utilizada durante uma sessão do Legislativo municipal e teve sua imagem registrada pela TV Câmara.

O jornal OVALE procurou o vereador para esclarecer a escolha do símbolo. A manifestação retoma um debate ocorrido durante a pandemia, quando medidas sanitárias e a exigência de comprovantes de vacinação provocaram discussões sobre saúde pública e liberdades individuais.

Alberto Barreto diz que camiseta foi um alerta sobre regimes totalitários

Na manifestação encaminhada ao OVALE, Alberto Barreto explicou que utilizou a estrela amarela para chamar a atenção para o que considera mecanismos de identificação e exclusão promovidos pelo Estado.

O vereador afirmou que sua intenção não foi estabelecer uma comparação direta entre as medidas sanitárias da pandemia e o assassinato de judeus pelo regime nazista.

“Minha intenção nunca foi fazer uma comparação direta com o extermínio em si”, declarou o parlamentar ao jornal.

Barreto explicou que pretendeu chamar a atenção para processos de estigmatização, identificação e segregação que, segundo sua interpretação, podem anteceder restrições mais amplas aos direitos individuais.

O vereador argumentou que governos podem criar distinções entre grupos da população e que, em sua avaliação, esse tipo de procedimento representa um risco às liberdades.

Na mesma manifestação, ele associou sua crítica à exigência do passaporte sanitário durante a pandemia de Covid-19.

Segundo Barreto, as medidas adotadas naquele período teriam utilizado mecanismos de identificação capazes de “etiquetar e isolar indivíduos”.

A comparação apresentada pelo vereador é uma interpretação política sobre as restrições sanitárias. Ela não estabelece uma equivalência histórica entre a situação de pessoas não vacinadas e a perseguição racial promovida pelo nazismo.

Estrela amarela foi utilizada pelos nazistas para identificar e perseguir judeus

A Estrela de Davi é um símbolo tradicionalmente associado à identidade judaica. Durante o regime nazista, uma versão amarela desse símbolo passou a ser imposta aos judeus como instrumento de identificação e perseguição.

Segundo o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, as autoridades nazistas implementaram diferentes formas de identificação obrigatória em territórios sob seu controle entre 1939 e 1945.

Em setembro de 1941, o regime determinou que judeus com seis anos ou mais, na Alemanha e em determinados territórios anexados, utilizassem uma estrela amarela visível sobre as roupas.

A identificação não representava uma escolha individual nem uma manifestação política voluntária. Era uma obrigação imposta pelo Estado nazista dentro de um sistema de leis discriminatórias e perseguição antissemita.

O símbolo facilitava o controle da população judaica, a segregação social e, posteriormente, as deportações para guetos e centros de extermínio.

O Holocausto resultou no assassinato de aproximadamente seis milhões de judeus europeus pelo regime nazista, seus aliados e colaboradores.

As políticas de perseguição tiveram fundamento racial e antissemita e integraram um processo que culminou no genocídio.

Informações históricas sobre a estrela amarela estão disponíveis na Enciclopédia do Holocausto, mantida pelo Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos.

Uso da estrela amarela em protestos antivacina já recebeu críticas internacionais

O uso da estrela amarela para protestar contra exigências de vacinação não começou com a manifestação de Alberto Barreto.

Durante a pandemia de Covid-19, participantes de protestos em diferentes países adotaram versões do símbolo com inscrições relacionadas à condição de não vacinado.

As manifestações eram direcionadas a medidas como comprovantes de vacinação, restrições de acesso a determinados estabelecimentos e outras exigências sanitárias.

Organizações de combate ao antissemitismo criticaram o emprego de símbolos do Holocausto nesses protestos.

A Anti-Defamation League (ADL), organização dedicada ao enfrentamento do antissemitismo, afirmou em 2021 que a utilização da estrela amarela nesses contextos estabelecia uma comparação inadequada entre medidas de enfrentamento à pandemia e a perseguição promovida pela Alemanha nazista.

Segundo a entidade, esse tipo de associação pode minimizar a dimensão histórica do Holocausto e a experiência das vítimas.

A posição da ADL foi apresentada em publicação sobre o uso de estrelas amarelas em manifestações contra medidas sanitárias na Europa.

A crítica não impede o debate público sobre as decisões adotadas durante a pandemia, mas destaca a importância de distinguir restrições sanitárias de políticas de perseguição racial e extermínio.

Vereador está no segundo mandato na Câmara de Taubaté

Alberto Barreto integra o PRD e exerce o segundo mandato no Legislativo de Taubaté.

O parlamentar também já presidiu a Câmara Municipal. Durante sua gestão, participou da condução de debates sobre contas públicas e projetos apresentados ao Legislativo.

Em agosto de 2024, o Vale 360 News publicou declarações de Barreto sobre o procedimento de análise das contas do ex-prefeito Ortiz Júnior, quando o vereador presidia a Casa.

A Câmara de Taubaté também tem sido palco de discussões políticas relacionadas ao processo eleitoral e à atuação de representantes públicos.

Em outubro deste ano, o vereador Douglas Carbonne criticou, durante uma sessão, eleitores de Taubaté que votaram em candidatos de outras cidades.

São manifestações distintas, mas que integram o debate político realizado no plenário municipal.

Referências ao nazismo também foram notícia recentemente no Vale do Paraíba e Litoral Norte

O uso de símbolos e referências associados ao período nazista voltou ao noticiário regional nos últimos dias, em circunstâncias diferentes.

No dia 31 de outubro, o Vale 360 News noticiou a execução de um trecho do hino alemão associado ao período nazista durante a recepção de uma comitiva da Alemanha na Prefeitura de Ubatuba.

Na ocasião, o vereador Gady Gonzalez (MDB) denunciou o episódio na Câmara de Ubatuba. A administração municipal reconheceu um equívoco e informou que a situação havia sido esclarecida com os visitantes.

Em ambos os casos, a compreensão histórica dos símbolos é importante para explicar o significado das referências utilizadas em ambientes públicos.

Vereador associa camiseta à crítica ao passaporte sanitário

Na resposta ao OVALE, Alberto Barreto manteve sua crítica às exigências de comprovação de vacinação adotadas durante a pandemia.

O parlamentar afirmou que, em sua avaliação, essas medidas estabeleceram distinções entre cidadãos e representaram um precedente de restrição de direitos individuais.

Barreto também argumentou que a identificação de grupos pode favorecer processos de marginalização social.

Essa é a justificativa apresentada pelo vereador para a utilização da camiseta durante a sessão de terça-feira.

Historicamente, porém, o uso obrigatório da estrela amarela pelos nazistas fez parte de uma política de perseguição racial que culminou no assassinato sistemático de milhões de pessoas. As medidas sanitárias da pandemia tiveram outra natureza e finalidade.

O episódio permite identificar duas questões distintas: o direito de parlamentares criticarem políticas públicas e a responsabilidade histórica envolvida no uso de símbolos associados às vítimas do Holocausto.

Vereador de Taubaté usa estrela amarela da perseguição nazista
Vereador de Taubaté usa estrela amarela da perseguição nazista. Foto: Reprodução/TV Câmara

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Jesse Nascimento
Jesse Nascimento

Fundador e jornalista do Vale 360 News. Especialista em Gestão da Comunicação de Mídias Digitais, com passagens pelas Rádios Globo e CBN do Grupo Globo e pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação, onde atuou como Chefe de Reportagem, apresentador, repórter e produtor. Cobre o Vale do Paraíba e Litoral Norte de São Paulo.