O El Niño 2026 ganhou força no Oceano Pacífico e mantém Vale do Paraíba, Litoral Norte e Serra da Mantiqueira sob atenção para períodos de chuva intensa, inundações, enxurradas e deslizamentos ao longo da primavera e do próximo verão. Em entrevista ao Vale 360 News, o meteorologista e tecnólogo da Sala de Situação do Cemaden, Henri Pinheiro, afirmou que setembro apresentou volumes atípicos de chuva e explicou que o órgão monitora as condições meteorológicas, hidrológicas e geológicas para subsidiar as Defesas Civis dos municípios da região. CLIQUE AQUI E ENTRE NO NOSSO CANAL DO WHATSAPP
O fortalecimento do fenômeno também aparece nos dados mais recentes do Pacífico. A MetSul Meteorologia informou nesta segunda-feira (28/09), com base em dados semanais da NOAA, que a anomalia de temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 chegou a cerca de 3,1°C, acima do pico semanal de 3,0°C observado no episódio de 2015-2016.
Há, porém, uma diferença importante entre esse dado semanal e o índice oficial trimestral. O ONI (Índice Oceânico Niño) é uma média de três meses na região Niño 3.4, e a tabela oficial do Centro de Previsão Climática da NOAA disponível no fim de setembro ainda mostra 1,8°C para junho-julho-agosto de 2026.
A própria NOAA diz que o El Niño está em fortalecimento e atribui probabilidade superior a 90% para um evento classificado como muito forte no outono e no inverno do Hemisfério Norte de 2026-2027.
Como o Cemaden monitora os riscos no Vale do Paraíba?
Henri Pinheiro explicou que uma das principais funções do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais é identificar condições capazes de provocar impactos sobre a população.
“Uma das missões é fazer o monitoramento de eventos que geralmente estão associados a excesso de chuva, que podem gerar deslizamentos de terra, inundações e enxurradas. São eventos que podem causar algum impacto para as populações”, afirmou.
A Sala de Situação acompanha esses cenários e, quando identifica possibilidade de desastre geohidrológico, envia o alerta ao Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres.
“Quando há algum risco de algum desses eventos acontecer, é enviado um alerta para o Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres. Esse alerta é redistribuído para as Defesas Civis estaduais e municipais, que tomam as ações devidas”, explicou.
O que o El Niño 2026 representa para o Vale do Paraíba?
O ponto central para o morador é que um El Niño muito forte não significa chuva extrema todos os dias, nem permite prever um desastre específico com meses de antecedência.
O fenômeno altera a circulação atmosférica em grande escala e muda as probabilidades de chuva e temperatura em várias partes do planeta. No Sudeste, os efeitos dependem da combinação do El Niño com frentes frias, umidade do oceano, sistemas de baixa pressão e outras condições.
Em agosto, o Vale 360 News já havia mostrado que os alertas do Cemaden para o El Niño ganharam importância no Vale do Paraíba, Litoral Norte e Serra da Mantiqueira, com projeções que já indicavam chance elevada de intensidade muito forte.
Henri apontou o fenômeno como um dos elementos associados à mudança no regime de chuva.
“O que a gente tem observado é que este ano as chuvas começaram um pouco mais cedo”, disse.
Ele explicou que alterações no Pacífico interferem na circulação atmosférica e mudam o padrão de chuva e temperatura em outras regiões.
“Essa alteração no Oceano Pacífico acaba mudando o regime de chuva e temperatura também em outras partes do planeta, como tem acontecido aqui na América do Sul”, afirmou.
Por que setembro de 2026 chamou a atenção do Cemaden?
Henri classificou setembro como fora do padrão esperado para a época.
“Setembro tem sido um mês excepcional em termos de chuva, porque nessa época do ano são esperadas chuvas em torno de 80 a 100 mm aqui na região do Vale do Paraíba, um pouquinho mais no Litoral Norte”, afirmou.
Segundo ele, algumas estações do Sudeste passaram de 200 milímetros no mês.
“O que a gente tem observado é um volume bem atípico de chuva. Esse excesso de chuva tem resultado em alguns eventos geohidrológicos, como inundações de rios e córregos e eventos pontuais de deslizamentos de terra”, explicou.
O meteorologista destacou áreas da Serra da Mantiqueira e do Litoral Norte entre os pontos que exigiram atenção após os acumulados elevados.
No Vale e na Serra, os números já chamavam atenção antes da metade do mês. Levantamento do Vale 360 News com dados oficiais do INMET mostrou que Campos do Jordão já havia superado seu maior setembro confiável na série automática até o dia 12. Na mesma data, Cachoeira Paulista registrava 167,8 milímetros e Taubaté, 151,6 milímetros.
Por que tanta chuva em setembro preocupa?
Setembro costuma ser uma fase de transição entre o período seco e a estação chuvosa.
“Setembro costuma ser um mês um pouco mais seco. Na verdade, setembro marca a transição entre o período seco e o início dessa transição para o período chuvoso, que tipicamente começa lá por meados de outubro e novembro”, explicou Henri.
O problema não está numa única chuva. A sequência de precipitações aumenta a umidade do solo e deixa as encostas mais sensíveis a novos episódios. Em áreas urbanas, rios e córregos também respondem aos acumulados anteriores, o que exige atenção em bairros sujeitos a alagamentos, encostas ocupadas e áreas próximas de cursos d’água.
Qual é a relação entre o El Niño e a chuva acima do normal?
Henri apontou o El Niño como um dos fatores que ajudam a explicar a configuração deste ano. O fenômeno se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial e interfere na circulação da atmosfera em outras partes do planeta.
No Brasil, episódios fortes podem alterar a distribuição das chuvas, embora os efeitos não sejam iguais em todas as regiões nem em todos os períodos. O meteorologista ressaltou que, para emitir alerta de chuva ou de deslizamento, o Cemaden não considera só o estado do Pacífico: analisa dados observados, previsões de curto prazo e a vulnerabilidade das áreas expostas.
O Vale 360 News acompanha o fenômeno desde o primeiro semestre e mostrou que municípios da região já reforçaram medidas de prevenção para o El Niño de 2026 e 2027.
O El Niño de 2026 já é o mais forte da história?
A análise da MetSul com dados semanais da NOAA aponta anomalia de aproximadamente 3,1°C na região Niño 3.4, superior ao pico semanal de 3,0°C atribuído ao episódio de 2015-2016 nessa comparação.
Esse dado precisa ser diferenciado do ONI oficial, que é uma média móvel de três meses e não equivale a uma leitura semanal. Na série oficial disponível no fim de setembro, o ONI de junho-julho-agosto aparece em 1,8°C. A NOAA também passou a usar o RONI (Índice Oceânico Niño Relativo) como referência para monitoramento e previsão.
Por isso, a intensidade final do evento só deve ser avaliada depois da consolidação das médias dos próximos trimestres. Um valor semanal elevado é um sinal relevante, mas não representa sozinho o valor final do episódio na série oficial.
Um El Niño mais forte significa desastres maiores no Vale?
Não necessariamente. A intensidade da temperatura do Pacífico não tem relação proporcional e automática com a intensidade de uma chuva em São José dos Campos, Taubaté, Ubatuba ou qualquer outro município.
Henri explicou que a avaliação de risco vai além da previsão de precipitação.
“Existe um fator que depende de quanto a população está exposta e vulnerável ao risco. Então é uma análise bastante multidisciplinar”, afirmou.
O risco depende do volume e da duração da chuva, da condição do solo, do relevo, dos rios, da ocupação urbana e do número de pessoas expostas — fatores que pesam especialmente no Litoral Norte e na Serra da Mantiqueira, onde o relevo acidentado amplia a atenção para movimentos de massa.
Em episódios anteriores, o Cemaden já classificou áreas do Vale e do Litoral Norte com risco alto para deslizamentos e enxurradas depois de períodos de chuva persistente.
Como o Cemaden decide quando emitir um alerta?
O Cemaden reúne várias fontes antes de emitir um alerta.
“A gente utiliza diferentes fontes de dados para fazer o monitoramento”, explicou Henri.
Entre elas estão pluviômetros, radares meteorológicos, imagens de satélite, informações de descargas elétricas e modelos numéricos de previsão.
“São dados medidos por estações, que nós chamamos de pluviômetros, que medem a quantidade de chuva em determinado local. Também são usados outros instrumentos, como satélites e radares, que mostram a intensidade e o deslocamento das chuvas”, afirmou.
O órgão considera ainda dados hidrológicos e informações sobre solo, encostas e vulnerabilidade da população, com análise de profissionais de meteorologia, hidrologia, geodinâmica e áreas ligadas ao risco.
“Existem protocolos baseados no impacto e na possibilidade desse impacto acontecer”, disse o meteorologista.
Quando o cenário atinge os critérios dos protocolos, o alerta segue ao Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres e, depois, às Defesas Civis estaduais e municipais, que adotam as ações locais.
O Cemaden usa modelo americano ou europeu?
Henri explicou que o órgão não depende de uma única fonte de previsão.
“A gente utiliza diferentes modelos. Consulta modelos de instituições internacionais, modelos europeus, modelos americanos, mas também modelos que geram previsões aqui mesmo na nossa região”, afirmou.
Entre as fontes nacionais está o INPE. “Essas previsões são usadas no nosso dia a dia para a tomada de decisão”, acrescentou. A comparação entre modelos permite avaliar cenários, incertezas e a possibilidade de chuva forte nas horas e dias seguintes.
Como a inteligência artificial participa dos alertas do Cemaden?
A inteligência artificial já aparece como apoio em várias áreas da meteorologia, mas, segundo Henri, a Sala de Situação ainda tem forte base em modelos numéricos e na análise técnica dos especialistas.
“Nesse momento, o Cemaden utiliza basicamente previsões de centros que geram previsões baseadas em modelos numéricos, modelos de previsão de tempo, para subsidiar as tomadas de decisão que nos levam à decisão entre emitir ou não determinado alerta”, explicou.
Esses modelos, somados a dados de estações, radares e satélites, alimentam a avaliação dos especialistas. O processo não depende só de um cálculo automático: a equipe também pesa a possibilidade de impacto e a vulnerabilidade das áreas expostas.
O que os municípios precisam fazer antes das chuvas mais fortes?
Henri destacou os planos de contingência como uma das medidas mais importantes para as Defesas Civis municipais.
“Para as Defesas Civis é essencial que haja planos de contingência para que, no caso de chuva forte e risco de algum desses eventos, como inundações, enxurradas e deslizamentos de terra, sejam tomadas as ações necessárias para proteger principalmente a vida humana”, afirmou.
Esses planos definem como o município age diante do risco — com abrigos, rotas de saída, monitoramento de áreas vulneráveis, comunicação com moradores e retirada preventiva de famílias em situações mais graves.
Em junho, prefeitos e representantes de municípios da região participaram de reunião sobre o fenômeno no Cemaden. O Vale 360 News mostrou como o El Niño reuniu lideranças municipais no Cemaden, em São José dos Campos, para discutir prevenção e preparação regional.
O que os moradores de áreas de risco devem fazer?
A recomendação central é acompanhar os avisos meteorológicos e os alertas da Defesa Civil.
“A população precisa ficar atenta aos avisos meteorológicos e também aos alertas das Defesas Civis”, afirmou Henri.
Moradores de encostas devem observar rachaduras no solo e nas paredes, inclinação de árvores, postes ou muros e aparecimento repentino de água no terreno. Perto de rios e córregos, uma elevação rápida do nível da água exige atenção imediata. A prioridade diante do risco, reforçou Henri, é preservar a vida.
Em emergência, o Corpo de Bombeiros atende pelo 193 e a Defesa Civil pelo 199.
O que muda com a chegada do período mais chuvoso?
A região entra numa época em que as chuvas costumam ficar mais frequentes. O solo já recebeu volumes expressivos em setembro, o que pede atenção adicional caso outubro traga novos períodos de chuva persistente.
O El Niño amplia a importância do monitoramento, mas não permite determinar com antecedência quais cidades terão os maiores impactos. A orientação do Cemaden é manter a preparação municipal, acompanhar as previsões e ficar atento aos alertas oficiais.
Assista à entrevista completa: Henri Pinheiro explica monitoramento e alertas do Cemaden
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Fundador e jornalista do Vale 360 News. Especialista em Gestão da Comunicação de Mídias Digitais, com passagens pelas Rádios Globo e CBN do Grupo Globo e pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação, onde atuou como Chefe de Reportagem, apresentador, repórter e produtor. Cobre o Vale do Paraíba e Litoral Norte de São Paulo.

